Select Page

Quando eu era miúda, os meus pais desdobravam-se em manobras para me entreterem nos três meses e tal de férias de Verão: quinze dias num campo de férias em Julho, mais quinze dias noutro campo de férias em Setembro, pelo meio um mês de férias com eles, mais uma semanita ou outra com os avós, e o resto do tempo em casa mesmo. Nunca tive grandes problemas em distrair-me. A minha mãe diz que eu me enfiava no quarto a ler ou a brincar durante horas, ao ponto de ela se esquecer que eu estava em casa. E também fiz parte da geração que ainda podia brincar na rua, por isso muitos dos meus dias de Verão foram passados no jardim, sozinha ou com os amigos da vizinhança. Mas a verdade é que ainda Agosto não ia a meio e já eu estava farta de férias, estava sempre com aquela ânsia de voltar para a escola e retomar a vidinha.
Ora se em miúda eu já achava que três meses de férias eram um abuso, enquanto mãe já estou aqui de caneta em riste, prontinha a assinar uma petição para

reduzir as férias da criançada, caso alguém se lembre de lançar uma. A sério, três meses e meio não é um abuso? Para já, e porque não sei, gostava que alguém devidamente habilitado – e não os pais de bancada – me explicasse se as crianças precisam MESMO de tanto tempo de férias. Sofrem um desgaste tão grande ao longo do ano que precisam de mais de três meses para se recomporem? É que convém não esquecer que, além das férias grandes, ainda têm as férias de Natal, Carnaval e Páscoa, por isso não é como se passassem ali o ano inteiro, quais condenados, a trabalhar de sol a sol.  Portanto, os miúdos precisam mesmo ou é mais por conveniência das escolas? Ou pelos custos que implica ter as escolas abertas mais tempo?

Depois, o que é que os pais fazem aos miúdos durante tanto tempo? Na minha altura, ia para os campos de férias através do trabalho da minha mãe, por isso pagava um valor irrisório, mas hoje em dia qualquer sítio pede, no mínimo, 100€ por semana. Por SEMANA! Como é que a maioria dos pais consegue suportar isto? E mesmo que consigam pagar uma ou duas semanas, continua a sobrar muiiiiiiito tempo. Depois, convém relembrar que os avós desta época já não são como os meus avós. Muitos ainda trabalham e têm uma vida activa, por isso não podem (ou não querem, legitimamente) ficar com as crianças. E, por fim, acho uma enorme disparidade o tempo de férias dos miúdos e o dos pais. Se o cidadão comum só tem 22 dias úteis de férias, como é que se espera que acompanhe os filhos nos seus infindáveis dias de férias? Mesmo para os que trabalham em casa, a coisa não é fácil. Digo-vos eu, meus amigos, que sei o que é ser interrompida a cada sete minutos com um “não tenho nada para fazer”, ou “podes vir brincar comigo?”, ou “tenho fome”, ou “tenho sede”, ou “e agora? Já acabaste de trabalhar?”.
O que é que sobra? Deixá-los em casa a vegetar o dia todo? Isto é produtivo? Saudável?  E atenção, que eu até acho que uma certa dose de aborrecimento é boa, para os miúdos serem capazes de se reiventar, de imaginarem novas formas de se entreterem, mas isto tanto pode dar para o bom como para a asneirada. E, muitas vezes, estamos a falar de crianças realmente pequenas, é mesmo seguro deixá-las em casa sozinhas? Acho, mesmo, que o sistema de férias está muito desajustado e é bastante ingrato para os pais/cuidadores.
Depois, temos também a questão pedagógica. Vivemos num país onde o insucesso escolar ainda apresenta números bastante significativos. É mesmo boa ideia manter os miúdos longe da escola umas 20 semanas por ano? Não é contra-produtivo? Sobretudo nas férias grandes. Lembro-me que quando regressávamos, em Setembro, os professores tinham  bastante trabalho a manter a ordem, porque os miúdos vinham completamente desregrados e desabituados do que era estar numa sala de aula. A coisa levava para aí um mês até entrar nos eixos e a malta perceber que as férias já tinham acabado.
Não estará na altura de repensar isto? E antes que me caiam aqui os adolescentes em fúria, a defender que deviam era ter sete meses de férias porque, coitados, trabalham i-men-so ao longo do ano, não, eu não quero que os miúdos estejam o ano inteiro fechados na escola (quer dizer, alguns nem com 365 dias de escola ininterruptos de aulas iam lá), mas acho que tem de haver um equilíbrio maior entre a escola e a família. Acho que umas seis semanas de férias grandes são mais do que suficientes, como já acontece em alguns países europeus. Ou, pelo menos, rever o tempo de férias de acordo com a faixa etária, porque um miúdo de 14, 15, 16 anos já tem uma autonomia completamente diferente de, por exemplo, crianças de seis, oito, dez. Depois, acho que aumentarem o tempo de férias dos pais também não seria má ideia. E subsidiar mais actividades lúdicas para os miúdos em tempo de férias. E talvez reduzir a carga horária diária e espaçá-la mais no tempo. Enfim, acho que se pode fazer muita coisa, não se pode é entregar as crianças aos pais a meio de Junho e dizer “pronto, agora arranjem-se até Setembro”. Quer dizer, poder pode, é basicamente o que se está a fazer. Não acho fixe.