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Nos últimos tempos tenho dado por mim a pensar nesta coisa das redes sociais, nas constantes mutações que têm vindo a sofrer e no papel que quero representar. Enquanto produtora de conteúdos e enquanto consumidora. Falo mais do Instragram, que é a rede por onde tenho passado mais tempo ultimamente. Todos os dias dou por mim a deixar de seguir pessoas (ou a “dar unfollow”, como dizem os jovens) e tem sido uma coisa muito terapêutica. Decidi que quero um mural mais “real” e à minha medida, se é que isso faz sentido num espaço minado de filtros, imagens felizes, peles perfeitas e destinos paradisíacos.
Este é um processo que vai levar o seu tempo, mas acho que vale a pena e acho, mesmo, que toda a gente devia fazer o mesmo: seguir só pessoas com quem nos identifiquemos mesmo ou que acrescentem alguma coisa à nossa vida, seja ela qual for. Comecei a perceber que

metade (muito mais de metade) das pessoas que sigo, não me dizem nada. São bonitas, têm perfis esteticamente cuidados mas, ao fim do dia, são só mesmo isso: muita beleza, pouco ou nenhum conteúdo. Pelo menos, conteúdo com que me identifique. São muitas, parecem clones, todas com aqueles feeds impecáveis ou monocromáticos, com aqueles presets tooooodos iguais onde não entra nenhuma imagem que possa quebrar a harmonia. É um estilo, percebo, mas é um estilo que eu já vomito. Porque depois, bem espremidinho, não se aproveita nada. Não me fazem rir, não me emocionam, não me dizem o que pensam sobre um assunto, seja ele qual for, não me dão uma sugestão cultural, não nada. É que mais do que saber qual é o spot mais fixe para tirar uma foto em Bali ou em Positano, eu quero saber porque é que esses destinos merecem ser visitados.

Depois, há a questão da pressão, e isto é particularmente grave entre as gerações mais novas, que estão constantemente expostas a estes novos ideais de beleza. Verdade que há cada vez mais diversidade, mais pluralidade, mais aceitação, mas 90% das contas de Instagram pertencem a miúdas que passam metade do ano em biquíni e outra metade em lingerie, a mostrar os seus corpos perfeitos e inatingíveis (com mais ou menos filtros e edição). Eu tenho 38 anos, há coisas das quais já desisti, vivo cada vez melhor com as minhas imperfeições, mas, aqui e ali, comecei a perceber que aquilo me afligia, me pressionava, que me deixava a pensar que, se calhar, também tinha de ser assim. Ai, filhos, não tenho. Quero estar bem, óbvio, quero cuidar de mim, mas o meu objectivo de vida não é publicar o meu rabo com a legenda #gratidão. 
Muito à conta do Instagram, acho que muita gente está a desenvolver uma relação obsessiva com a imagem, com todos os problemas de auto-estima que isso pode trazer. Estava a ler numa revista que, segundo o estudo de uma farmacêutica levado a cabo em 18 países, mais de metade dos millenials consideraria fazer uma internvenção (mais ou menos invasiva) para mudar a sua aparência e que 61% acreditam que a imagem contribui para melhorar todos os aspectos da sua vida. Muitos deles apontam até as rugas como a sua preocupação número um. Como assim? Quando é que os miúdos deixaram de ser miúdos para se começarem a preocupar com estas merdas? Diria que as redes sociais têm bastante culpa no cartório.
E calma, não comecem já a achar que é publicidade, porque não é mesmo, mas há uns tempos fui a Londres, a convite da Dove, para conhecer a sua nova campanha, e foram partilhados dados de um estudo de 2017, o Global Girls Beauty and Confidence, com o objectivo de examinar o impacto da imagem corporal e da auto-confiança entre jovens dos dez aos 17 anos, em 14 países. E gostava de partilhar convosco alguns dados que me parecem interessantes:

– 54% das jovens assume que não tem uma auto-estima elevada no que respeita aos seus corpos;
– 7 em cada 10 miúdas com pouca auto-estima põem a sua saúde em risco ao saltarem refeições ou ao recusarem-se a ir ao médico;
– 8 em cada 10 miúdas com pouca auto-estima evitam actividades que são importantes para o seu desenvolvimento, como conviver com os amigos e a família, participar em actividades fora de casa ou juntarem-se a algum tipo de grupo ou clube;
– 7 em cada 10 miúdas com pouca auto-estima sente-se pressionada para ser bonita;
– 7 em cada 10 miúdas com pouca auto-estima sentem-se piores consigo mesmas depois de folharem revistas ou consultarem redes sociais e verem fotografias de modelos ou figuras públicas;

Não acham isto preocupante? Eu acho, mesmo. E, também por isso, estou apostada em deixar de seguir pessoas que se focam exclusivamente na imagem. Nesta minha demanda pelo Instagram perfeito, percebi que também havia pessoas que seguia apenas como guilty pleasure, por me parecerem tão ridículas que aquilo acabava por me divertir. Só mesmo para gozo pessoal. Até que deixou de ser giro. E comecei só ali a achar que muitas dessas pessoas precisavam,  mesmo, de ajuda profissional. E quando deixou de ser giro para passar só a dar-me pena achei que, em calhando, estava na hora de dizer-lhes adeus.
Claro que, ao defender e promover esta política, corro o risco de muita gente deixar de me seguir também. Às tantas, começam a pensar e concluem que também não digo nada de jeito, que não se identificam minimamente comigo, com as minhas teorias, com o meu humor. Mas eu prefiro, mesmo, que essas pessoas vão ser felizes para outras paragens do que ficarem ali a moer-me o juízo e a minar o ambiente. Claro que também publico muita coisa que não aporta assim tanto quanto isso às vossas vidas, mas tento sempre que, no mínimo dos mínimos, vos divirta. 
Ainda tenho muito trabalhinho pela frente, que fui ver agora e sigo quase três mil contas, mas se todos os dias me dedicar um bocadinho a isto, acho que vou no bom caminho para começar só a seguir pessoas que, realmente, me acrescentam alguma coisa. Gostava, mesmo, de saber a vossa opinião sobre o assunto, se sentem o mesmo do que eu ou se acham que isto é só coisa de pessoa idosa =)